A arte da rua

Dão vida às cidades, são muitas vezes confundidos com os sem-abrigo e usam a arte como uma forma de se expressarem e afirmarem em sociedade. Os artistas de rua são o epicentro do cosmopolitismo e hoje vim descobrir a pessoa por trás do artista.

 

Por entre as ruas da Baixa Lisboeta, vários são os talentos à espera de ser descobertos. São músicos, acrobatas, contorcionistas, estátuas, palhaços ou poetas e têm todos algo em comum, o amor pela rua. Para uns é apenas uma forma de sustento, para outros é muito mais do que isso, é um modo de vida e de entretenimento.

Ao passar junto aos Armazéns do Chiado, numa das ruas mais turísticas de Lisboa, é impossível não reparar num saxofonista, que vai impressionando quem por ali passa, com um cover de “If I ain’t got you”, de Alicia Keys. De repente, cria-se uma multidão à sua volta, as câmaras começam a gravar, e no rosto das pessoas nota-se uma felicidade genuína, típica de quem vai guardar aquele momento na memória. Enquanto isso, de óculos de sol, calças de fato treino, e casaco bordô, Jeferson Lemos, brasileiro, de vinte e nove anos, que chegou a Portugal, em 2000, à procura de uma vida melhor, juntamente com os pais e irmãos, permanece numa espécie de transe. “Um dos elogios que mais recebo quando estou a tocar é a emoção que consigo transmitir nas músicas. Mesmo estando totalmente no meu mundo, de olhos fechados, porque é assim que sinto a música, continuo a ter a capacidade de mexer com os sentimentos das pessoas que me ouvem e isso é algo que me dá muito prazer”, conta.

Duas músicas e muitos aplausos depois, numa das poucas mesas livres nos Armazéns do Chiado, o músico, que é também licenciado em Teologia, recorda, com uma certa nostalgia no olhar, o momento em que percebeu que a rua tinha que fazer parte da sua vida. “ Toco saxofone desde os meus 11 anos, e um dia, a convite de alguns amigos, que já eram artistas de rua, resolvi vir experimentar também. Estava um bocado receoso e com vergonha, achei que as pessoas me iam ver como um sem-abrigo, mas decidi arriscar”, relembra. Passaram-se sete anos desde esse dia, e a rua tornou-se um vício para Jeferson, que nunca mais a abandonou. A sensação de que, com a sua arte, consegue mudar completamente o dia de alguém, despertando-lhe todo o tipo de emoções foi o que o viciou.

Na verdade, para a maioria dos artistas que por aqui passam, independentemente da carreira e do sucesso que venham a ter, a rua é algo que permanece e que nunca se deixa completamente para trás. “Tenho amigos que hoje são músicos reconhecidos nacionalmente e que continuam a vir aqui tocar. As pessoas podem crescer na vida e atingir o sucesso, mas nunca se vão esquecer de onde começaram. A rua dá-nos coisas que não se conseguem obter noutro lado.”

De pessoas a chorar enquanto o ouviam, a pedidos de casamento, Jef, como gosta de ser tratado, já presenciou de tudo, tendo, inclusive, recebido diversas propostas de turistas, que reconhecendo o seu talento, se ofereceram para o ajudar a sair do país, para que pudesse ter o sucesso que merece. A última delas o músico não conseguiu recusar, estando já de partida para França, onde vai permanecer alguns dias, com o objetivo de se ambientar ao país, antes de pensar numa mudança em definitivo. “Tenho na agenda já alguns eventos em restaurantes e bares para ver como aquilo é, depois logo decido se é realmente isso que quero. O meu sonho é mesmo Inglaterra ou Holanda, países para os quais também recebo bastantes convites.”

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Jeferson Lemos num momento de perfeita união com a sua música

Já na Rua Augusta, um casal, com um aspeto tipicamente holandês, de mochila às costas e câmara fotográfica na mão, “perde” uns minutos do seu dia, para apreciar a atuação de um outro artista de rua, Gaspar Silva, que é já um dos habitués daquela rua. Ao som dos tambores do músico, o casal mostra-se deslumbrado com a performance que está a assistir e elogia a cidade, revelando intenções de regressar. “Lisboa é uma cidade incrível. É a nossa primeira vez cá, mas não será de certeza a última. Os artistas de rua são muito talentosos e dão um ritmo diferente à cidade. Penso que tornam a experiência dos turistas mais mágica de certa forma. É uma forma de arte que torna tudo à volta mais belo.”

Os turistas são, aliás, o público-alvo da maioria dos artistas de rua, e Jeferson não é exceção. O antigo pastor evangélico (com apenas dezanove anos, Jeferson tornou-se pastor, seguindo as pisadas do seu pai), escolhe o seu repertório musical, tendo em conta as músicas do momento na rádio, não só em Portugal, mas também no estrangeiro e aquelas que sabe que vão mexer com as pessoas. “Muitos artistas tocam apenas aquilo que realmente gostam, mantendo-se fiéis a si próprios. Eu respeito isso, mas eu preocupo-me também com aquilo que os outros querem ouvir. Assim a maioria das músicas que toco acabam por ser comerciais, para que quem me está a ouvir se identifique comigo”, confessa, revelando que a maioria dos contributos que recebe na rua vêm mesmo de estrangeiros.

Apesar das boas perspetivas de futuro no mundo da música, o saxofonista, que é também campeão nacional de jiu-jitsu, desporto que decidiu começar a praticar após ter sofrido bullying na infância, garante que o reconhecimento não é algo que procure a qualquer preço, relembrando os tempos em que fez parte de uma das bandas de jazz mais populares do país. “Há seis anos comecei a tocar num grupo chamado Alta Cena, e a banda acabou por explodir de um momento para o outro em Portugal. Aparecemos em todos os canais nacionais e chegámos inclusivamente a fazer a abertura da Final da Liga dos Campeões, no Estádio da Luz, em 2014. Foi uma experiência incrível.” O dinheiro caía do céu, e o grupo parecia que estava a viver um sonho. No entanto, o sucesso repentino da banda e o dinheiro fácil, afetaram a maioria dos membros do grupo, que ainda muito jovens, e sem maturidade para lidar com tudo o que estavam a viver, decidiram seguir caminhos separados, pondo fim ao grupo, que hoje está já na sua terceira formação.

Entretanto, enquanto faz contas de cabeça para calcular o dinheiro que consegue tirar ao final do mês, tendo em conta as quatro horas diárias em que toca na rua, Jeferson recebe uma chamada que interrompe a conversa. Era o diretor da PSG, empresa de segurança privada, que nos últimos tempos tem estado bastante na agenda mediática. Após uns minutos ao telefone, o artista apressa-se a explicar. “Era da empresa para a qual trabalho. Nos últimos anos, tenho trabalhado como segurança. Já fui também guarda, no estabelecimento prisional da Carregueira, em Sintra, e trabalhei 6 anos como instrutor de rappel. Já fiz um pouco de tudo.”

De volta às contas, Jef, que já não vive apenas da música, chega à conclusão de que há cerca de três anos, quando os seus rendimentos provinham todos da rua, ou dos eventos em que tocava, a convite de quem o via atuar naquele cantinho junto aos Armazéns do Chiado, chegava a receber cerca de 1500 euros mensais, valores que ajudaram o artista a convencer os pais das suas escolhas de vida. “ Quando eu comecei a tocar na rua os meus pais não viram isso com muito bons olhos. Achavam que não era algo digno e que eu vinha para a rua pedir esmola. Usavam mesmo essa expressão. Mas quando começaram a ver-me a chegar a casa com 100 ou 150 euros num dia que correu bem, mudaram um pouco de opinião e agora já aceitam”, afirma.

O dinheiro que se recebe ao final do dia depende sempre de vários fatores, do dia da semana, da época do ano, do talento que se tem, da escolha musical, mas acima de tudo da imagem. A forma como um artista de rua se apresenta perante o seu público é, sem dúvida, determinante para o montante que se consegue amealhar, e Jeferson sabe bem isso. “Eu pessoalmente sinto bastante essa diferença. Já vim tocar de todas as maneiras e feitios e sei que quando venho mais bem vestido, as pessoas não contribuem tanto, porque acham que não preciso.” Apesar disto, é preciso olhar também para o outro lado da moeda. É que, tocando na rua, existe sempre a possibilidade de se receber convites para atuar em eventos, e o número de propostas vai sempre depender da forma como a pessoa perceciona o artista. Sendo assim, é essencial saber encontrar um meio termo entre o look mais sujo e desgrenhado e um visual mais clean e apresentável.

 No andar abaixo daquele em que esta conversa decorreu, deparo-me com uma jovem, na casa dos vinte anos, a tomar café no Starbucks, que corrobora esta opinião, considerando ainda que os artistas de rua têm vindo a tornar-se progressivamente num marco da cidade. “Os artistas de rua dão um ar mais cosmopolita à cidade e atraem muita gente. Turistas principalmente. Quando são realmente bons conseguem melhorar a experiência de qualquer pessoa, despertando em nós os mais variados tipos de emoção, é incrível.”

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Baixa Lisboeta na época natalícia

Regressando ao andar de cima, o saxofonista, que já atuou nos mais diversos palcos e com alguns dos melhores artistas nacionais, desde os HMB, ao Toni Carreira, passando pela Áurea e Sara Paço, demonstra o seu amor pela rua, revelando que, apesar de já ter tido a oportunidade de tocar em eventos muito prestigiantes, e com nomes de referência da música portuguesa, é na rua que se sente melhor. “ Quando vou tocar a algum lugar fechado eu não sei qual é a reação das pessoas, se elas estão a gostar ou não. Na rua só vai parar quem realmente gosta, só vai tirar o telemóvel e filmar quem realmente gosta. Quem não gosta continua simplesmente o seu caminho. Detesto tocar em eventos muito chiques ou de muita ostentação porque ninguém demonstra nada. Sinto-me um bocado invisível e na rua isso não acontece”.

Mas se pensa que ser artista de rua é apenas ter talento e vir para as ruas demonstrá-lo, desengane-se. Há uma série de desafios que se colocam no dia a dia de um performer, e a necessidade de obter uma licença é um deles. Na realidade, poucos são aqueles que de facto têm licença, e isso deve-se a um longo processo burocrático, em que no fim os artistas têm que pagar para atuar num sítio diferente daquele que queriam. “Se um músico quiser obter uma licença, tem que dizer a rua que quer, o número da porta mais próxima do local exato onde pretende atuar e pagar um valor absurdo por isso. No entanto, acabamos por só conseguir para ruas menos movimentadas de Lisboa, onde ninguém quer estar. Na zona da baixa é impossível obter licença. Só as estátuas é que conseguem”, explica, deixando bem patente no discurso a sua discordância perante esta política.

Tendo isto em conta, não é difícil adivinhar que a polícia seja um dos principais problemas para qualquer artista de rua, que passa os dias com o receio de ser multado e de ver os seus instrumentos apreendidos, mas não é seguramente o único. A discriminação e o olhar de lado continuam bem presentes na rotina dos artistas de rua, que apesar de já começarem a ser vistos como talentosos, muitas vezes são confundidos com mendigos e excluídos da sociedade. “Já me aconteceu muitas vezes verem-me a tocar e oferecerem-me comida. É claro que eu aceito e agradeço, mas fico um bocado constrangido porque não é essa a imagem que quero passar. Há muitos professores de música, músicos profissionais e vencedores de prémios que tocam na rua.” Neste momento são até já mais os artistas que atuam na rua por diversão e porque gostam de entreter o seu público, do que propriamente por necessidade, e por isso é preciso desmistificar esta ideia.

Outro dos problemas que se coloca no dia-a-dia dos artistas de rua, na baixa lisboeta, é o barulho, que muitas vezes acaba por incomodar os lojistas. Mas tanto para os artistas como para os trabalhadores, este tipo de confusões acabam por ser facilmente ultrapassáveis. Pelo menos é essa a opinião de Joana Dias, trabalhadora da Zara, que aproveitou a sua pausa, para assistir à performance de três músicos, que atuam junto ao metro no Largo do Chiado, fazendo as delícias dos presentes. “A convivência com os artistas de rua é no geral bastante pacífica. Por vezes fazem demasiado barulho e temos que os chamar a atenção, contudo eles são muito respeitadores e ou baixam o som ou deslocam-se para outra zona. No fundo acho que eles são uma mais-valia para a cidade, para o turismo e consequentemente para o comércio.”

Com a conversa já no fim, e a caminho de mais uma atuação, Jeferson revela que, apesar de tudo o que a música já lhe deu, não é pelo seu trajeto enquanto saxofonista que se sente realizado, mas sim pelo seu trabalho enquanto voluntário. O jovem artista, que em criança sonhava ter um irmão adotivo e conseguir ajudar os outros, criou em 2011 uma associação de solidariedade, a +Vida, com o objetivo de integrar os sem-abrigo na sociedade, e mais tarde viajou para a Roménia para fazer voluntariado num asilo e em dois orfanatos, numa das experiências mais enriquecedoras que já viveu. “Há poucas sensações iguais à de poder ajudar os outros e de poder contribuir, por pouco que seja, para melhorar a vida de alguém. O mais difícil foi ter que ficar longe da minha filha que na altura tinha apenas um ano. Fui muito criticado porque achavam que eu a estava a abandonar, mas era algo que eu precisava de fazer. A minha filha tinha a mãe, tinha os meus pais e aquelas crianças não tinham nada.”

Após a experiência na Roménia, seguiu-se Marrakech, onde passou cerca de cinco meses, dois dos quais a passar fome e a dormir na rua. “Fui para Marrocos para dar aulas de música e de boxe como voluntário, contudo a associação em que me inscrevi não organizou muito bem as coisas ao nível de alojamento e alimentação e assim acabei por ter que passar dois meses a viver na rua e a comer apenas uma bolacha de manhã e uma à noite. Perdi 16 kg, mas nem por isso deixei de fazer o meu trabalho.”

O espírito de sacrifício é algo que está bem patente na vida de Jeferson, sendo essa uma característica essencial para qualquer artista de rua que queira ter sucesso. A vida na rua não é fácil, é um trabalho precário e inconstante, que exige talento, esforço, dedicação e entrega, porém ser artista de rua é ter um dom e capacidade de fazer as pessoas, rirem, chorarem, refletirem sobre a vida e acima de tudo emocionarem-se.

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