“O Marcelo Rebelo de Sousa aprendeu a tirar selfies comigo”

Salvou vidas e assistiu impotente à destruição do “seu” concelho, num dia que ficará para sempre marcado na memória dos portugueses e dos habitantes de Oliveira do Hospital. Acredita no reerguer depois da tragédia dos incêndios. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa chegou a dizer-lhe que era muito parecido consigo devido à relação de proximidade que estabelece com as pessoas que o elegeram. Tem como grande arrependimento não ter ido mais longe no futebol e rege-se pelo lema “não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem a ti”. José Carlos Alexandrino, Presidente da Câmara de Oliveira do Hospital.

 

DR- Acho que é seguro dizer que a noite de 15 de Outubro de 2017 foi a mais difícil da sua vida. Alguma vez pensou que iria testemunhar uma tragédia destas dimensões?

JCA- Eu comecei a acompanhar a situação dos fogos por volta do meio-dia e meia hora no concelho de Seia, fui depois para o concelho de Arganil, e ao longo do dia, fui tendo noção da gravidade da situação, mas nunca pensei que o incêndio pudesse ter atingido as proporções que atingiu. Apenas por volta das 18:15 h, quando acionei o plano de emergência municipal, é que me apercebi que não íamos conseguir controlar o fogo, porque até essa altura achava que seria possível evitar uma catástrofe. Mas quando acionei o plano de emergência fi-lo com a certeza que o concelho de Oliveira do Hospital iria arder todo.

DR- Como é que um Presidente da Câmara, como líder da proteção civil do concelho, gere uma situação destas?

JCA- O que eu, enquanto Presidente da câmara e pessoa responsável pela proteção civil, tentei fazer, foi manter a minha racionalidade. Era necessário analisar a situação à luz da razão para tomar as melhores decisões e definir o rumo que devíamos seguir. Mas, o que eu tentei fazer logo foi ajudar as pessoas. Nós salvámos muita gente e conseguimos evacuar aldeias inteiras. Houve um trabalho incrível da proteção civil, em conjunto comigo, com os vereadores, os funcionários da câmara, os sapadores, os bombeiros e os GNR. Foi um grande esforço coletivo e só por isso é que só se registaram doze mortos, caso contrário poderíamos estar na presença de uma catástrofe ainda maior, com centenas de mortos. Não conseguimos salvar algumas pessoas porque as estradas já estavam cortadas e falharam-nos as comunicações, e isso foi fatal.

DR- As dificuldades criadas pela ausência de comunicações são então a prova do quão dependente estamos das tecnologias hoje em dia?

JCA- A ausência de comunicações fez-nos sentir desamparados e mostrou-nos o quão frágeis podemos ser. Dificultou-nos muito os trabalhos de evacuação porque não sabíamos como estavam as estradas. Não conseguíamos dar informações aos familiares de habitantes de Oliveira do Hospital, que tentavam ligar para saber dos seus familiares e não conseguiam comunicar com eles. A partir de uma certa hora deixámos também de conseguir comunicar entre nós. Os bombeiros que estavam num local não conseguiam saber o que se passava noutro. Sentíamo-nos completamente impotentes. Por isso sim, acho que nos mostrou que nos dias de hoje, os telemóveis e a Internet são cruciais no nosso dia-a-dia, e quando isso falha as dificuldades são muitas.

DR- Esteve todo o dia a ajudar a combater os incêndios. Chegou a temer pela sua vida?

JCA- Sim, ao longo do dia fui-me deslocando para várias localidades para, junto com a proteção civil e os bombeiros, tentarmos ajudar as pessoas e protegermos as suas casas. Houve momentos em que fiquei completamente encurralado pelas chamas e pensei mesmo que ia morrer. Podia aqui contar duas ou três histórias dessas, mas acredito que em Oliveira do Hospital toda a gente tenha uma história para contar sobre o dia 15 de Outubro.

DR- Para além dos doze mortos, no concelho de Oliveira do Hospital arderam mais de 100 casas de primeira habitação.

JCA- Sim é verdade. Primeiro, a nossa prioridade era tentar apagar o fogo e defender as casas, mas chegou a um ponto em que tivemos que dizer para se deixar arder as casas para salvarmos as pessoas, e isso é uma decisão dramática. Quando as casas de habitação, em que as pessoas investiram o trabalho de uma vida, deixam de nos preocupar é algo absolutamente doloroso. A partir desse momento o nosso objetivo passou a ser resgatar as pessoas e os animais. Não conseguimos.

DR- Em situações como esta é possível separar o lado humano do cargo político?

JCA- Não é possível separar o lado político do humano em situações como estas. Assisti a coisas que nunca pensei vir a assistir e, em momentos como estes, é impossível distanciarmo-nos. Ao longo do dia dei por mim várias vezes com lágrimas nos olhos. Ninguém consegue assistir a uma criança de 11 anos queimada sem se perguntar o porquê? Por que é que aquela criança tinha que passar por aquele sofrimento? Vi demasiadas pessoas queimadas e isso não se esquece.

DR- Mas sente que poderia ter sido feito algo mais para evitar que o incêndio atingisse as proporções e o nível de destruição que atingiu?

JCA- A velocidade do fogo era vertiginosa, era um furacão de fogo. Nunca tinha visto nada assim, fazer mais era impossível. Podíamos ter 5000 bombeiros no terreno que os efeitos seriam os mesmos. A única coisa que seria possível fazer, se tivéssemos mais meios, era evitar que tivessem ardido tantas casas, já que algumas casas começaram a arder a partir de pequenas fagulhas, o que rapidamente se resolveria se tivéssemos mais pessoas no combate aos incêndios.

DR- E ao nível de meios aéreos, não acha que poderiam ter sido uma preciosa ajuda?

JCA- Na verdade, quando comecei a perceber a velocidade de propagação do fogo, a meio da tarde, liguei logo à Sra. Ministra da Administração Interna e ao Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros. Informei-os de que precisava de reforços e que seria crucial ativar os meios aéreos para que fosse possível suster o fogo, mas os meios aéreos nunca chegaram e não conseguimos fazer mais nada.

DR- O que aconteceu, independentemente das suas causas, está também muito ligado à questão do aquecimento global e das alterações climáticas. Acha que esse é um assunto que tem que ser mais discutido?

JCA- Sem dúvida. É impossível não discutir este assunto à luz do quadro das alterações climáticas a nível mundial. É preciso colocar isto na agenda política e mediática. Temos que ter consciência que isto foi um fogo de dimensões nunca antes vistas e que se continuarmos neste caminho, com as grandes emissões de CO2 a nível industrial isto vai voltar a repetir-se.

DR- A câmara de Oliveira do Hospital, é uma das poucas câmaras do país que não tem dívidas. Acha que esse equilíbrio orçamental foi crucial para o rápido realojamento de quem perdeu tudo nos incêndios?

JCA- A câmara municipal de Oliveira do Hospital fez uma coisa que muitas outras não fizeram, que foi não ficar à espera. Eu de dia dezasseis para dezassete, por volta das duas da manhã tracei logo um plano de recuperação e de intervenção para recuperar as primeiras casas. Chamei os presidentes de junta e disse-lhes o seguinte. “Nunca ninguém nos julgará por aquilo que fizemos por Oliveira do Hospital até aqui, mas toda a gente nos julgará por aquilo que fizermos daqui para a frente” Não fiquei à espera. Perdemos cinco mil animais, e em conjunto com a junta de freguesia alugámos máquinas para enterrar todos os animais, comprámos várias toneladas de palha para começar a distribuir, fizemos um protocolo com a Cooperativa Agro de Oliveira do Hospital, para que as pessoas pudessem ir buscar ferramentas para começarem a limpar os seus terrenos. Alugámos casas e pagámos a renda a quem tinha ficado desalojado. Foi um trabalho de uma grande equipa, onde foram englobados os presidentes de junta, os empregados municipais e os vereadores. A sustentabilidade da câmara municipal permitiu-nos ajudar rapidamente toda a gente, Injetámos dinheiro na economia local. Houve pessoas que ficaram só com a roupa que tinham no corpo e nós criamos logo um fundo para as ajudar, entregando imediatamente 150 euros a quem tinha ficado sem dinheiro. Não queríamos um concelho onde as pessoas dormissem debaixo da ponte ou passassem fome por lhes ter ardido tudo.

DR- Disse que toda a gente os iria julgar pelo trabalho que iriam desenvolver a partir daquele momento. Passados três meses desde o incêndio, qual é feedback que tem recebido por parte da população relativamente ao trabalho realizado?

JCA- Foi um trabalho de intervenção muito rápido e eficaz. As pessoas têm-me dado os parabéns e isso é algo que me deixa feliz. Só com o trabalho coletivo é que conseguimos inverter esta situação. Sabemos que não conseguimos chegar a todos porque é difícil ter conhecimento de todos os casos, mas chegámos à maioria. Passados apenas quatro dias já tínhamos outdoors com uma mensagem de esperança para o nosso povo. “Vamos renascer Oliveira do Hospital, bem-haja a todos os que nos estão a ajudar”. E é isso que temos vindo a fazer.

DR- Por falar em ajuda, além do bom trabalho realizado pela câmara municipal, grande parte da recuperação de Oliveira do Hospital deve-se a uma grande onda de solidariedade que chegou de todo o lado. Isso foi algo que o surpreendeu?

JCA- A onda de solidariedade criada sinceramente a mim surpreendeu-me. Era uma coisa a que nunca tinha assistido e tivemos que chegar ao ponto de pedir que parassem de enviar coisas, porque já tínhamos demasiado. Vieram voluntários de todos os cantos do país para nos ajudar. Foi fantástico e queria agradecer ao povo português por toda essa solidariedade e, na Feira do Queijo, vamos fazer um grande almoço solidário para dizermos obrigado a essas pessoas e convidá-las a regressarem a Oliveira do Hospital, não para trabalharem mas para conviverem connosco. Dia 12 de março será o dia para dizermos obrigado a toda a gente que nos ajudou.

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DR- Tenho conhecimento que passado apenas alguns dias do incêndio, o pânico geral se instalou em Oliveira do Hospital, com um falso-alarme de risco de explosão da empresa Sonae Arauco, na zona industrial do concelho. A empresa esteve mesmo em risco de explosão ou foi uma situação criada pela fragilidade emocional das pessoas?

JCA- A questão do falso alarme aconteceu devido à fragilidade psicológica em que se encontravam os nossos habitantes, e qualquer coisa que foi dita foi desvirtuada e levou a uma cadeia de emoções e a uma cidade em pânico. Parecia um cenário de filme. Mal me chegou a informação de que a empresa estaria em risco de explosão, desloquei-me às suas instalações, e quando cheguei a empresa estava a laborar com naturalidade, tendo em conta as circunstâncias, já que ela tinha ardido parcialmente. Estavam lá os bombeiros a fazer uns abastecimentos de água completamente normais. Ainda existiam uns focos de incêndio mas tendo em conta os materiais inflamáveis que lá estavam isso era expectável. Se a empresa tivesse que explodir já tinha explodido antes. De qualquer maneira foi uma situação desagradável, com os pais a irem buscar os filhos à escola a meio das aulas, a abandonarem as suas casas e os seus empregos, mas eu percebo, as pessoas estavam muito frágeis depois de terem vivido com muita intensidade aquilo que se passou e qualquer situação criava o pânico geral.

DR- Como é que lidou com essa situação?

JCA- O que nós tivemos que fazer foi acalmar as pessoas e dizer que não era nada daquilo. Vim para a rua e para as estradas dizer às pessoas que estava tudo controlado. Colocámos os bombeiros na rua com altifalantes e passamos a informação à radio Boa Nova para ser difundida mais facilmente. O importante é que acabou por não acontecer nada de grave, não se registaram choques nem acidentes, e por isso depois tudo regressou à normalidade.

DR- Neste momento quais são os principais desafios que se colocam à recuperação do concelho?

JCA- Agora um dos principais problemas é o arrastamento de águas e a estabilização dos solos, porque agora com as chuvas, é necessário termos equipas prontas a trabalhar, para evitar que as estradas fiquem inundadas e haja cheias. Este é um trabalho para muitos anos, um trabalho que eu não gostaria de ter. Gostaria mais de estar a pensar na estratégia de marketing e promoção de Oliveira do Hospital, que é algo que vínhamos a fazer nos últimos anos, com a feira do queijo, com a Expoh e com grandes programas culturais e desportivos, mas infelizmente hoje somos mais conhecidos por esta tragédia do que pela nossa estratégia de marketing. Estávamos à espera de estar concentrados nisso, até porque pretendia fazer um grande mandato como despedida, mas agora as nossas diretrizes viraram-se para outro campo. Aprovámos agora o maior orçamento de sempre da câmara, no valor de 33 milhões de euros, e grande parte desse orçamento vai ser para a recuperação do concelho.

DR- A reflorestação é neste momento também uma prioridade?

JCA- Bem há uma coisa que neste momento é fundamental que é, como disse, a estabilização dos solos, isso ainda antes de pensarmos na reflorestação. Fizemos uma candidatura que está orçamentada em dois milhões de euros, porque não temos condições financeiras para resolver o problema sozinhos. Há casas em risco e que estão sinalizadas, que podem cair devido a arrastamentos de terra provocados pelas chuvas. É que o incêndio trouxe-nos outros problemas adicionais, o problema da falta de água, das cinzas e das cheias. Hoje haver água em Oliveira do Hospital é fruto de um trabalho fantástico dos serviços municipais do concelho, que em dois dias restabeleceram totalmente a rede de abastecimento de água. Portanto, neste momento, é preciso também controlar as linhas de água porque antes as folhas e os terrenos absorviam a água e agora não. Temos um trabalho por fases. Primeiro estabilização dos solos e segundo discussão política a sério sobre a reflorestação e que tipo de reflorestação vamos fazer. Que tipo de floresta queremos ter para não voltar a acontecer isto. Eu pessoalmente sou contra a eucaliptização do meu concelho. Eu quero Oliveira do Hospital sobretudo com pinheiro bravo e carvalho, árvores que fazem parte da nossa história. Estamos a trabalhar também na recuperação de casas e empresas e só depois iremos concentrar-nos na reflorestação. Já fizemos uma experiência com um avião a deitar sementes para os solos e estamos a ver se funciona. Se funcionar vai ser um meio a utilizar. Mas sinceramente isso recupera-se, o que nunca se vai recuperar são as famílias que se perderam.

DR- Portugal atravessa um grande período ao nível do turismo, gozando neste momento do estatuto de país da moda e o turismo rural está em clara expansão. Tem uma ideia do quão prejudicial a questão dos incêndios vai ser para o turismo no concelho?

JCA- Nesta primeira fase acredito que, pela dimensão dos incêndios sejamos um ponto turístico, mas isso não vai durar para sempre. As pessoas quando vierem querem ver o verde, querem ver as florestas, não querem ver um concelho completamente queimado. É uma coisa dolorosa aquilo que vamos perder em termos de turismo. Tínhamos um turismo de natureza fantástico, com caminhos de xisto e montanhas que eram uma das grandes riquezas do concelho. Este ano tinha até previsto com o diretor da volta a Portugal, Joaquim Gomes, uma etapa que terminasse lá no topo do monte Colcurinho, mas tive que deixar cair a ideia. Queria vender aquela parte do concelho, queria vender aquela beleza em termos de televisões, mas agora já não é possível. Agora temos um grande trabalho pela frente para recuperar o turismo. Temos que começar do zero e desenvolver estratégias de marketing para vender outra vez o concelho.

DR- Referiu anteriormente a Feira do Queijo como um dos grandes cartões de visita do concelho e que isso era algo em que gostaria de estar concentrado. Qual é o segredo do sucesso deste evento?

JCA- Acima de tudo uma grande estratégia de marketing e o facto de estarmos a promover um produto de qualidade. Em Oliveira do Hospital, o nosso executivo montou uma estratégia em que o grande acontecimento do ano é a feira do queijo. Através de um produto de excelência, que é o queijo Serra da Estrela, decidimos projetar Oliveira do Hospital no mapa e penso que isso foi conseguido. Oliveira passou a ser uma cidade conhecida, passou a ser uma cidade com identidade própria, e essa identidade ganha-se com as televisões. Se não houver televisões não se vende uma cidade. A nossa feira do queijo foi a primeira a ser feita dois dias e é a nossa grande marca para vendermos no exterior e não sermos confundidos com Oliveira do Bairro ou Oliveira de Azeméis que era uma coisa que me irritava. Hoje acho que já ninguém confunde.

DR- Está neste momento a cumprir um terceiro mandato, em que obteve o número histórico de 8400 votos. Estava à espera de uma vitória tão tranquila?

JCA- Quando ganhei as eleições pela primeira vez pensei bastante no desafio que tinha à minha frente. Sempre fui um homem de grandes desafios, mas na altura não estava à espera de ganhar. Tinha dúvidas se estaria à altura do desafio. Sei que sou um lutador e que tinha a determinação necessária para fazer um bom trabalho, mas foi uma noite em que me questionei várias vezes, se conseguiria estar à altura da responsabilidade, ainda para mais não tendo maioria absoluta. Desde aí os números têm vindo sempre a aumentar e penso que isso é um reconhecimento do meu trabalho e da postura que tenho vindo a adotar no cargo. Não estava à espera de um número tão elevado de votos, mas fiquei bastante feliz com isso.

DR- Falou da postura que tem enquanto Presidente, que postura é essa?

JCA- Tenho uma política de proximidade, de estar muito perto das pessoas. Sou uma pessoa muito emotiva e decido muitas vezes com pouca racionalidade e, apesar de um bom político ter que decidir com mais racionalidade, eu sempre fui assim e não vou mudar com esta idade. Há uns tempos, o Presidente da República, que é muito meu amigo, disse-me que tinha sido eu que o tinha ensinado a tirar selfies e que eramos muito parecidos na forma de estar e de agir politicamente. Portanto, desde que sou presidente da Câmara Municipal trouxe uma nova forma de estar na política. Para mim as pessoas são pessoas, não são números, nem votos.

DR- E qual é a sua ideologia política?

JCA- Defendo uma sociedade equilibrada, quero uma sociedade sem pobres, mas não me importo que haja ricos, desde que não exista pobreza. A minha liderança é uma liderança com objetivos claros. Sou um homem de equipa, até por ter sido treinador de futebol. O meu dever é servir os outros. Às quartas-feiras vêm sempre aqui pessoas muito humildes e com alguma vergonha pedir-me ajuda e o que eu lhes digo sempre é que não precisam de ter vergonha porque a Câmara Municipal é a casa deles.

DR- Foi treinador de futebol e esteve inclusive perto de ingressar em equipas técnicas de primeira liga. Tem saudades desses tempos?

JCA- Tenho muitas saudades de ser treinador e de ser jogador. Tenho saudades de viver aquele dia-a-dia no futebol, os treinos, os jogos, os aspetos técnicos e táticos. O futebol é mesmo a minha grande paixão. Fui várias vezes campeão distrital, estive pelos campeonatos nacionais e tive um convite do Augusto Inácio para fazer parte da sua equipa técnica na primeira divisão, mas recusei porque tinha outros projetos na minha vida. Fiz muitas coisas, mas desde que recusei essa possibilidade deixei de vez o futebol e passei a ser só mais um espectador. O meu grande arrependimento é não ter conseguido ir mais longe.

DR- Entrou agora no último mandato. Já tem planos para o futuro?

JCA- Quando terminar o mandato terei 66 anos e terei uma boa idade para tentar viver algumas coisas que não vivi. Vou dedicar-me a outras coisas. Vivi muito do trabalho e não tive muito tempo para me dedicar à minha família. Agora vou ser avô e provavelmente vou estar mais presente para este meu neto do que estive para as minhas duas filhas. Tive um cancro da próstata, em 2014, que me fez pensar na vida de forma diferente e ver as coisas de uma outra perspetiva. Portanto, quando sair, não vou estar mais ligado à política independentemente do que possa surgir. Vou tirar o meu tempo para escrever as minhas memórias, num livro que se vai chamar “As angústias das minhas quartas-feiras” porque é nas quartas-feiras que recebo aqui nesta mesa todas as pessoas de Oliveira do Hospital que precisam na minha ajuda e nesse livro vou contar as suas histórias. Quero também viajar mais e conhecer novas culturas, especialmente a oriental, que me desperta muita curiosidade.

DR- Arrepende-se, então, de algumas das escolhas que fez na vida?

JCA- O meu único arrependimento é não ter ido mais longe no futebol. De resto não. Fiz tudo o que queria fazer, dediquei-me muito a causas sociais e ao meu trabalho e não me arrependo. Se morresse hoje não tinha problemas em dizer que vivi a vida, tive a vida que sempre quis ter.

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